Nossa História
proposta de uma nova educação

Professor Gerson de Melo Brito Boson, reitor da UFMG, discursa na abertura do 1º Festival de Inverno de Ouro Preto, na Igreja São Francisco de Assis, em 1967
A história da Fundação de Educação Artística tem início a partir da inquietude de jovens músicos em relação à educação e a prática musical vigente na Belo Horizonte no início dos anos 1960. Para uma capital que avançava na modernidade, o ensino de música nas poucas orquestras e escolas existentes soava anacrônico.
O pequeno grupo, formado pelos pianistas Berenice Menegale, Eduardo Hazan e Vera Lúcia Nardelli Campos, recém-chegados de estudos na Europa, ganhou adeptos: o professor e maestro Sergio Magnani, Venício Mancini, Maria Clara Paes Leme e Lilly Kraft, pianistas, Conceição Rezende, musicóloga, Leônidas Autuori, violinista, Salvador Villa, clarinetista, e Antonieta Salles, professora de flauta doce.
A proposta era criar uma escola inovadora para transformar radicalmente o ensino da música, livre das amarras acadêmicas e que atraísse jovens para uma formação estética e cultural mais ampla. Desde as primeiras discussões, em 1962, seus fundadores deixaram clara a ideia de que a escola deveria ser uma entidade sem fins lucrativos e sem vínculos com instituições oficiais.
Em busca de viabilizar o projeto, Berenice Menegale foi recebida pelo então ministro da Educação de João Goulart, Darcy Ribeiro, que, aberto a concepções inovadoras de educação, contribui com uma verba para a criação da entidade. Esse fato possibilitou a compra de quatro pianos e o aluguel, por seis meses, da primeira sede, a casa do coreógrafo Klauss Vianna, na avenida Bias Fortes, em Belo Horizonte. Vencido o primeiro obstáculo, a Fundação de Educação Artística foi criada oficialmente em 8 de maio de 1963.
O passo seguinte foi dado na parceria com o Colégio de Aplicação, que teve apoio da diretora Alaíde Lisboa. Foi criado então o Ginásio Musical, projeto no qual se buscou aliar o ensino da música às outras disciplinas escolares e que durou de 1963 a 1967 e formou quatro turmas com resultados surpreendentes.
A opção por não se tornar uma universidade e se manter como escola livre foi pioneira e reforçou o caráter libertário de sua metodologia de ensino, sempre em mutação. Esse aspecto é uma das marcas da FEA, aplicando-se à iniciação musical de crianças e na formação de profissionais e novos educadores ao longo de seus 60 anos.
A opção pela vanguarda
e os Festivais de Inverno
Desde sua origem, a Fundação de Educação Artística desbravou caminhos ainda pouco explorados em Minas Gerais, tanto na área pedagógica como nas propostas de difusão da música. A ênfase na música do século 20 fica explícita já na realização do primeiro concerto da série Manhãs Musicais, em 1963, dedicado ao compositor húngaro Béla Bartók (1881-1945).
Após o sucesso da realização de um curso intensivo com o pianista austríaco Hans Graf (1928-1994), os professores da FEA decidiram reproduzir a proposta imersiva em um ambiente novo: foi escolhida a cidade, Ouro Preto; e o nome, Festival de Inverno.
Mais uma vez, a disposição empreendedora dos professores e pessoas ligadas à Fundação conseguiram mobilizar recursos e organizar o I Festival de Inverno de Ouro Preto, em 1967. Na primeira edição, além dos 10 cursos de música promovidos pela FEA, a Escola d Artes Visuais da UFMG realizou seis cursos na área de artes plásticas.
Além das oficinas e cursos, o Festival de Inverno promoveu vasta programação cultural, com convidados de outros estados e do exterior, promovendo um intenso intercâmbio entre alunos e professores de distintas formações e origens. A partir dos anos 1970, a orientação da área de música do Festival de Inverno, coordenada pela FEA até 1986, passa por transformações, dando ênfase à prática da composição e ao estudo de obras contemporâneas e vanguardistas.


Programa do 1° Festival de Inverno
Ouro Preto – MG, 1967

O compositor, maestro e professor H. J. Koellreutter teve importante presença na FEA e na renovação do ensino musical em Minas Gerais
A tônica experimental contou com as contribuições fundamentais de músicos egressos da Escola de Música da Bahia – o argentino Rufo Herrera, Marco Antônio Guimarães, o alemão H.J. Koellreutter – e do argentino Dante Grela, para fomentar a discussão sobre o fazer e a didática musical.É importante a menção à longeva parceria com o Goethe-Institut, que, a partir de 1969, colaborou com a vinda de professores para cursos, artistas para concertos e oficinas e a doação de instrumentos para a instituição, incluindo o famoso piano Steinway.
É importante a menção à longeva parceria com o Goethe-Institut, que, a partir de 1969, colaborou com a vinda de professores para cursos, artistas para concertos e oficinas e a doação de instrumentos para a instituição, incluindo o famoso piano Steinway.
Criação e promoção
da música contemporânea

Cartaz do Festival de Música Contemporânea Latino-Americana, um dos vários eventos promovidos pela FEA na promoção de uma integração entre compositores e intérpretes da região
O comprometimento da Fundação de Educação Artística com um novo tipo de educação, a criação e a difusão da música do século 20 foram sempre os pilares conceituais da instituição. A experiência dos Festivais de Inverno, acrescida da presença de importantes compositores em cursos e residências na FEA, fez surgir uma preocupação de incentivar a criação e a prática da composição.
Ao enfatizar essa área, a atuação da FEA representou um significativo incremento na formação de novos compositores que passaram a integrar os quadros de docentes de diversas universidades brasileiras. Com a promoção dos Ciclos de Música Contemporânea, dos Encontros de Compositores Latino-Americanos e a atuação do grupo Oficina Música Viva, além dos inúmeros cursos e residências de compositores, a atividade da FEA deu um forte impulso na cena contemporânea no estado. A música de câmara também sempre teve destaque nas atividades da FEA, desde o primeiro concerto do Conjunto de Câmara da Fundação de Educação Artística, em 1968 até os dias atuais, com a formações de diversos grupos em diferentes épocas.
Além disso, foram realizadas mais de 30 edições bianuais da Semana de Música de Câmara, em que eram contempladas tanto a difusão quanto a formação – por meio de masterclasses e oficinas.
Outro aspecto fundamental da atuação da FEA ao longo de suas seis décadas de atividade é a capacidade de agregar pessoas com os mesmos ideais, o que contribuiu para o surgimento de diversos grupos de música e tiveram relação direta ou indireta com a instituição. Vale destacar o Madrigal Renascentista, o GRUME (Grupo de Música Experimental), o Grupo Oficcina Multimédia, o Uakti, entre outros.
Uma pedagogia
sempre em mutação
Tema de intenso debate, a educação musical na Belo Horizonte da década de 1960 estava presa a metodologias anacrônicas e especificamente dirigida ao aprendizado técnico dos instrumentos. A Fundação de Educação Artística, ja em sua concepção, trouxe uma visão bem mais abrangente a respeito desse processo. Como dizem seus fundadores, a proposta não era informar, mas formar o aluno numa cultura musical e mais amplamente, artística. Nesse sentido, a liberdade da FEA fez com que a pedagogia adotada buscasse expandir conceitos e paradigmas metodológicos.
No final dos anos 1970, com a guinada para a música e vanguarda e contemporânea, a FEA passou a investir nos processos criativos e de composição, reformulando radicalmente sua metodologia. Muitos alunos da FEA se tornaram professores, o que também contribuiu para a renovação da pedagogia e um processo constante de autocrítica e reflexão sobre o ensino musical.

Professora em sala de aula durante o Festival de Inverno de Ouro Preto, em 1967
De um primeiro momento, em que a experimentação foi a tônica no aprendizado, a FEA e seu quadro docente passaram a discutir uma maior formalização de suas práticas pedagógicas e a elaboração de currículos, distinguindo etapas do aprendizado. Sem perder o caráter de escola livre, a FEA testou diferentes métodos e abordagens dos elementos da linguagem musical e, ao longo, das décadas manteve o espírito crítico e aberto a novas propostas.